42 dias na  Escuridão – Blog do Lerner


Série, criação de Claudia Huaiquimilla e Gaspar Antillo – Chile, 2022

A primeira série chilena da Netflix parte, como muitas outras séries, do misterioso desaparecimento de uma pessoa.  E como muitas outras séries, tem como base uma história real. O diferente, em 42 dias de Escuridão, é que o desaparecimento de Verônica não conduz a obra ao gênero thriller policial, dando ênfase ao crime e aos policiais que o tentam desvendar, mas às consequências do acontecimento nas vidas dos familiares da desaparecida. O mistério, obviamente,  tem função importante, mas o carro chefe da narrativa é o drama familiar. Ao tecer os meandros desse drama e as intricadas relações que o conduzem, os criadores/diretores da série abandonam a história real e criam seu universo de personalidades e conflitos. É por isso que eles declaram que a obra é apenas inspirada e não baseada no desparecimento de Viviana Hager em 2010, ainda que os fatos permaneçam fieis ao que ocorreu naquele caso. É por isso também que dão nomes fictícios aos personagens e Viviana torna-se Verônica.

É muito interessante como os realizadores integram esses dois elementos: o mistério do crime e as relações familiares, um alimentando a fogueira do outro, principalmente com a inserção de flashbacks da irmã Cecília (Laudia di Girolamo) e da filha mais velha Karen (Julia Lubert) evocando suas relações com a desaparecida. A história paralela do advogado fracassado que tenta investigar o caso com seus dois “assistentes” igualmente marginalizados, também reforça essa correlação. Os dois episódios finais perdem um pouco da pegada criativa no roteiro, principalmente quando o eixo do mistério transita do desparecimento de Verônica para o julgamento. Ainda assim, é um drama  instigante do início ao fim.

O que mais me impressionou na direção da série é o tratamento quase documental que confere à obra uma autenticidade incrível. Essa qualidade é atingida pelo tom das interpretações, pela escolha do elenco e sua caracterização, principalmente  na maquiagem que sugere ausência de maquiagem. Os tipos, as caras, as falas parecem as dos vizinhos ao lado e esse é um grande diferencial de 42 dias na Escuridão. O cenário exuberante da região dos lagos chilena tem uma importância muito grande no impacto da obra, criando um contraponto estético com a caracterização quase documental dos personagens e com o clima de tensão estabelecido. Outro diferencial é o desfecho, muito distinto do que se espera de séries sobre casos como este. Pode agradar a uns e decepcionar a outros, mas é uma solução muito interessante dentro do conceito que norteia 42 dias na Escuridão.



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