A Inundação do Milênio – Blog do Lerner


Série, direção de Jan Holoubek, Polônia 2022

Vinte e cinco anos após as trágicas enchentes que assolaram A República Tcheca, a Polônia e a Alemanha, a Netflix apresenta uma séria dramática que trata do fenômeno que foi batizado como a inundação do milênio. O diretor Jan Holoubek já havia usado o tema como pano de fundo de outra série dele, Rojst 97, em que as torrentes de água acabaram expondo um cemitério clandestino. A Inundação do Milênio foca nas enchentes na cidade de Breslávia e arredores e embora seja uma obra dramática, com personagens e tramas ficcionais, a calamidade é tratada com rigor documental. Não apenas pela fidelidade aos dados e autenticidade dos elementos cênicos da época, mas também pela extensa pesquisa que foi feita com moradores e suas histórias para inspirar as subtramas que compõem a grande tragédia.

Um dos grandes acertos da série é o de não seguir a estética de filmes de desastre hollywoodianos. Holoubek não espetaculariza o fenômeno climático, exibindo cenas de ação e pânico reforçadas por efeitos sonoros e trilha exacerbadamente dramática. Ao contrário, constrói a tensão do que está para vir em quatro dos seis episódios, e inunda Breslávia de fato, só nos dois últimos episódios. Para ele é mais importante mostrar como se deu a tragédia, qual parcela dela é desastre natural, qual a parcela humana. Nesse processo, a obra cria quase que um tratado social sobre o individualismo e o coletivismo, sobre a solidariedade e o egoísmo e sobre a relação cidadãos, políticos e militares numa Polônia que há pouco deixou de ser comunista no regime, mas não na mentalidade da burocracia estatal. 

Agnieszka Zulewska interpretando a cientista Jasmina Tremer

É curioso que a grande causadora da inundação, a chuva intensa, não aparece na série. A trama inicia em maio de 1997 com um fax alarmante de uma cientista, advertência que é ignorada pelas autoridades, mais preocupadas com a iminente visita do Papa, ainda mais que estão em plena época de seca. A série pula seis semanas para 9 de julho, um dia após as fortes chuvas de cinco dias que caíram na região. Essas chuvas apenas são mencionadas em um comentário que elogia o papa, como ficou estoicamente abençoando o povo sob o aguaceiro. Esses três dias que antecedem a grande inundação (9-12 de julho) são portanto dias ensolarados, cujo clima contrasta com a tensão das águas que sorrateiramente sobem os níveis dos rios e represas e em breve deixarão 40% da cidade submersa.

Neste 9 de julho, Jasmina Tremer, interpretada por Agnieszka Zulewska,  a hidróloga que mandou o fax de advertência em maio, é trazida às pressas para a cidade para tentar evitar o pior. Enquanto ela tenta desempenhar esse papel da melhor maneira possível, tem que encarar também o drama pessoal que a fez sair da cidade há mais de quinze anos.

Vale destacar os efeitos digitais que criam a cidade submersa, com uma mescla interessante de imagens documentais da época e a estética ocre esverdeada que dá o tom à série, passando a percepção do clima naqueles anos na sociedade polonesa. A Inundação do Milênio pode ser vista na Netflix.



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