É hora de debutar com talento (talento!) – Série Maníacos


A nova temporada da corrida mantém o nível e ensina uma lição importante às queens: até para estar no bottom tem que ser surpreendente.

 

Fazer 15 anos não é para qualquer reality show…. Fazer 15 anos sendo um dos reality shows mais bem-sucedidos do mundo é mais difícil ainda. Apesar de todo o discurso de saturação, a Drag Race tem em seu favor a ideia de “comfort food” que costuma cercar as grandes produções de cultura pop da humanidade. É aquele impulso de ver o mesmo filme mil vezes, de nunca trocar de canal quando passamos pela sala… A Drag Race é vítima da própria popularidade, mas é estranhíssimo pensar num mundo em que ela não esteja ali, o tempo todo, de tantas formas, só para que saibamos que as coisas estão cada uma no seu lugar.

Sempre teremos as “temporadas clássicas”. Alguns dizem que elas foram até a sexta temporada; alguns dizem que elas foram até a oitava temporada. Depois que o programa começou a ganhar prêmios (especificamente após a sétima temporada), entramos no que se pode chamar de “anos controversos”, quando as temporadas passam a ser menos unânimes e agrupam tipos específicos de espectadores. Com a quantidade tão grande de versões, os tipos inesquecíveis surgem com menos frequência, mas, de fato, todas as temporadas têm algo de marcante para oferecer, para o bem e para o mal.

A décima quinta começou muito bem, a despeito de toda essa “energia de cansaço” que vem rondando a franquia. De certa forma, ainda que haja tantas drag races por aí, essa é a “original”, é onde tudo começou e para ela sempre precisa haver uma compassividade especial. Isso nem se torna uma tarefa difícil se considerarmos o fato de que Ru está sempre tentando inovar nas estreias, dando mais tempo de tela e mais oportunidades para as competidoras… Uma pena que algumas delas não se esforcem na mesma direção. Mas, chegaremos lá.

As Debutantes

Irene entrou primeiro (e saiu primeiro também). O look era bagunçado, meio elfo, meio porco-espinho e meio Vivacious na passarela (o que se tratando do tema da première não era tão off-brand assim). O fato é que com a entrada de Lux em seguida, estabeleceu-se o que parece ser o tom da maioria desse elenco: o shade e a superficialidade. A preocupação de Lux com o comprimento da peruca era ridícula; mas ainda mais ridículo era ver as outras dando mais tempo de tela para esse estapafúrdio “conflito”.

Aura apareceu nos confessionals mostrando os músculos e dizendo aquele texto pronto de todas as drags que se focam apenas no look: “minha drag é Beyoncé, eu sou a mais linda, a mais sexy, ninguém aguenta comigo….”. Por conta disso, já aplaudo Marcia Marcia Marcia pelas escolhas fora da curva; do nome ao look, que foi pensado, com referências… básico, mas completo. E foi ela quem já chegou conjurando Ariana Grande. A entrada de Anetra também foi especialmente boa. Look ousado, energia boa e sem aquele discurso com vibe Gia Gunn que já está cansado.

Malaysa também escolheu um bom look, bastante inusitado, emulando uma raposa gay bem extravagante e debutando como primeira queen de Miami. Logo depois lá vem Princess Poppy, a primeira viral do Tik Tok; um novo subgênero drag que infestou essa seleção por razões óbvias: essa é uma geração dominada por vitrines virtuais, e conforme o tempo passar, elas serão mais e mais frequentes no mercado. A cultura do “não preciso entreter para ser drag” está aí batendo na porta e nos últimos dias virou pauta depois que Aja publicou a afirmação num tweet, que foi problematizado por ninguém menos que Bianca Del Rio.

Quando Sasha Colby entrou, com seus tantos anos de experiência, o desnivelamento do tópico “talento” começou a soar como o enredo dessa temporada. Pessoalmente, considero que para ser uma “artista drag” é preciso ter mais que um look. Do contrário, você pode ter apenas se montado como drag, para fotos e posts, o que não deixa de ser uma espécie de subversão perigosa da profissão. A arte, seja ela qual for, tem o dever de exibir-se para o mundo. O artista é o refúgio da existência humana e se você escolhe ser uma drag apenas pela vaidade do look, precisa estar pronta para enfrentar essa prerrogativa.

A entrada de Ariana Grande com a roupa de Ornacia foi uma pitada de gênio. Lady Gaga ainda mantém o posto de melhor convidada da história (inclusive por conta do incrível Untucked que ela protagonizou), mas Ariana é uma grande fã da corrida e escolheu o jeito certo de referenciar o programa e ainda causar uma grande reação nas meninas. Ariana é uma das divas pop mais adoráveis do mercado, sempre dá ótimas entrevistas, tem um talento para imitações que é insano e uma voz angelical. E vai fazer a Glinda em Wicked, o que já rendeu várias tiradas ótimas durante os episódios.

RuPaul finalmente aumentou o prêmio para 200 mil e acertou ao trazer de volta o icônico primeiro ensaio fotográfico da corrida. Ainda temos a première dupla, mas o elenco dessa vez foi dividido no mesmo dia, indo para estúdios diferentes, dando um ritmo novo para essa estreia, deixando ela mais surpreendente e excitante. Foi uma ótima ideia. Também foi preciso reforçar que dessa vez as eliminações acontecerão pra valer e não somente quatro semanas depois, como na temporada passada.

Então, Salina chegou como a primeira da segunda leva, servindo uma vibe bem Cintia Lee Fontaine. Prefiro esse humor nonsense, aliás. Amethyst foi a próxima e ela também entrou depois de se tornar viral no Tik Tok. Contudo, ela parece um pouco mais focada em comédia, o que exige talento no fim das contas. E foi ela também a primeira da excursão que partiu de Connecticut para Los Angeles.

Jax entrou com um dos piores looks da noite, mas ao menos tem uma boa energia. Loosey veio em seguida e começou a formar o bando que veio da mesma cidade. Todas parecem só jogar shade uma em cima da outra, mas ainda assim é um grupo. Mistress foi a próxima e além de parecer com Eureka, chegou determinada a falar mal do máximo possível de pessoas em tempo recorde; especialmente das gêmeas. A coisa toda soou quase como uma obsessão. Depois dela, Robin Fierce surgiu com o nome drag mais genérico do planeta.

E enfim, as gêmeas… Sugar e Spice são profundamente irritantes. Assim como quase todas as personalidades jovens formadas por essa geração tik toker, elas não têm a menor ideia do quão superficiais elas soam. Além de parecerem versões em esteroides de Laganja Stranja, elas são a reunião de todos os clichês exalados por adolescentes ricos de Los Angeles. Mas, como costuma acontecer na corrida, elas provaram um ponto: tudo nesse programa é sobre criar uma narrativa. Se as gêmeas souberem usar a perseguição das outras, saem dessa edição como heroínas.

O Baile

Seja no All Stars ou aqui, acho a ideia do show de talentos a melhor maneira de começar o jogo. Ela separa totalmente quem realmente pensou e se preparou, de quem só empacotou as roupas e foi. Há uma coisa MUITO importante acontecendo na engrenagem do reality: a repetição como forma de segurança. Mais importante que vencer a corrida é aparecer na corrida; e esse raciocínio sempre coloca lá dentro um monte de queens completamente esquecíveis, falando pelos cotovelos que são poderosas e irresistíveis, mas sem nenhuma preocupação com talento.

A prova disso está nos “talentos” escolhidos para o show. Mais da metade das meninas gravou uma música usando as palavras “bitch, fierce, sexy…” e fez um lipsync genérico onde simplesmente nada acontece. Em quase todos os casos são as meninas que não tem o background da profissão que acabam aparecendo com esses números. São números que deveriam concorrer ao que chamo de “Morgan McMichaels Award”; que premia drags que tem a vocação para montagem, para a atitude, para o shade, mas que são incapazes de imitar um pato que seja.

Os lipsyncs começaram com Malaysia, o que me frustrou um pouco porque ela é uma das competidoras que tem muita experiência. Era uma música ruim, genérica, a dança era mediana e tudo foi totalmente entediante. Spice foi a segunda da fila de lipsyncs, mas ao menos tinha props e tentou fazer humor. Provou que ali dentro daquela cabecinha não há um vazio completo, como pensavam as outras. Em seguida, Lux veio como outra forte candidata ao prêmio Morgan McMichaels. Muita atitude, zero originalidade.

Mistress também tinha um lipsync, claro… A letra genérica, a atitude genérica, mas ao menos os movimentos eram uma assinatura clara; e a piada com a barra de chocolate foi ótima. Loosey resolveu cantar ao vivo por cima da base da música e foi um DESASTRE. Mas, ao menos era algo diferente, era uma quebra da fila de lipsyncs todos iguais. Foi o que Marcia Marcia Marcia fez também; fugir do óbvio. Quando ela revelou a foto de Ross ao som de I’ll Make Love To You, dançando balet, eu vibrei. Finalmente algo realmente pensado e planejado para surpreender.

Robin Fierce é quem provavelmente elegeria como a vencedora do Morgan McMichaels Award. Tudo nela é recorrente e óbvio. Irene veio em seguida com um tutorial de como beber água gelada. Era uma boa ideia, diferente, mas totalmente mal executada, sem uma piada sequer, sem timing nenhum. Um pesadelo. Mas, ainda assim, diferente. De certa forma foi bom para Anetra, que também dublou, mas chegou com um diferencial: um número de dança absurdo de bom. Não há nada errado com a roda, desde que você a gire perfeitamente. E Anetra fez isso… PERFEITAMENTE.

Sugar não foi tão bem quanto a irmã, mas foi o suficiente para se salvar. Poppy também trouxe o ventriloquismo como algo que ainda não tínhamos visto no palco. É fato que ela não estava fazendo ao vivo, mas volto a dizer, era diferente. Salina tinha muita energia, mas a música era terrível, porque a voz dela é terrível. Amethyst teve uma ideia incrível com o lipsync de Lisa Stanfield, mas aquele bebê não podia ter aparecido logo nos primeiros 5 segundos de performance. E com Aura, mais uma dublagem genérica. Quando Sasha Colby veio com um clássico lipsync drag, típico do tempo pré-drag race, foi como uma brisa de ar fresco. Ela estava atuando a música, vivendo a música, numa belíssima performance. Jax encerrou o baile pulando corda com os cabelos e fazendo um lindo número de acrobacias. De novo, girou a mesma roda, mas com perfeição.

Expulsa da Valsa

Na passarela, zero surpresas. Contudo, foi impossível não notar que TODAS as dublagens genéricas foram apenas salvas e tanto o Top quanto o Bottom foram formados por quem fugiu desse formato. Ainda que eu ache que várias daquelas dublagens mereciam um bottom, com isso os jurados estão mandando um recado: nos surpreender é sempre melhor que nos entediar. Estar no bottom também é uma forma de se marcar na história da corrida.

O lipsync ao som de Ariana não foi incrível, mas deu para saber bem que Amethyst foi um pouco melhor que Irene. Amethyst tinha os compassos da música todos marcados e evoluiu conforme eles aconteciam. A parada final foi perfeita. Irene saiu merecidamente e sua saída também coloca uma luz sobre o fato de que é preciso chegar muito certa das próprias forças e fazer o máximo possível para não ter uma postura autocentrada. Já basta uma Jasmine Masters chegando se dizendo a melhor, gongando as outras e saindo em 5 minutos.

Com isso, chegamos ao fim da première dupla e podemos dizer com segurança que estamos diante de um elenco forte, capaz de resultar numa ótima edição, se todos os deuses drags se organizarem para nos dar a temporada que merecemos. Toda essa discussão em torno de talento, vitrine, Tik Tok… tudo isso pode render conflitos que enriqueçam ainda mais a narrativa, sobretudo se os editores não fugirem dessa responsabilidade.

É isso senhores, estamos de volta… A Drag Race está aqui, o universo está alinhado, está tudo ao mesmo tempo, o tempo todo, no mesmo lugar. Exatamente como a gente ama. Se você tá cansado é fácil resolver: NÃO ASSISTA!



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