Guerra na Ucrânia deve provocar queda no crescimento do PIB


Considerado um dos maiores analistas de risco político e econômico do mundo, o economista americano Robert Kahn, diretor global de macroeconomia da consultoria Eurasia, tem passado boa parte de seu tempo avaliando os acontecimentos na Ucrânia e a reação dos países ocidentais à guerra. Ex-conselheiro sênior do Banco Mundial e professor adjunto da universidade Johns Hopkins, um dos mais respeitados centros de estudos sobre geopolítica nos Estados Unidos, Kahn falou com exclusividade à EXAME sobre os desdobramentos da guerra para a economia e os reflexos na opinião pública. “Com a crise do petróleo desencadeada pelas sanções à Rússia e as consequências do próprio conflito na Ucrânia, o crescimento do PIB do mundo deve sofrer uma queda de 1 ponto percentual”, diz. “E nova alta da inflação que deve se seguir deve ter impacto inclusive na avaliação do governo Biden”. Veja, a seguir, os principais pontos da entrevista.

Em fevereiro, antes do início da guerra na Ucrânia, a inflação chegou a quase 8% nos Estados Unidos. O custo das sanções à Rússia deve agravar a alta dos preços e impactar a avaliação do governo Biden?

Não há dúvida de que os americanos estão frustrados pelo alto nível de inflação no país, o que acrescenta novas camadas a um sentimento de insegurança econômica. Isso faz com que as pessoas sintam que não estão se beneficiando da retomada econômica e certamente contribui para a frustração com o governo Biden. Presidentes costumam ser culpados em situações como essa. Novas altas de preços da gasolina e da inflação em geral, que são esperadas, terão um forte impacto na opinião pública. Mas ao mesmo tempo, há um sentimento entre os americanos de que a Rússia invadiu um país sem ser provocada para isso e precisamos dar uma resposta à altura.

Do ponto de vista prático, os consumidores americanos podem acabar pagando pelas sanções contra o petróleo russo?

Os Estados Unidos não importam tanto petróleo da Rússia, mas haverá certos deslocamentos importantes no fornecimento de óleo para o país. Isso vai impactar a inflação. O aumento de preços nos postos de combustível vai aumentar a insatisfação da população. Por outro lado, as pesquisas sobre a opinião dos americanos em relação às sanções ao petróleo russo apontam que 70% das pessoas apoiam a medida.

Os americanos devem continuar apoiando esse tipo de política no médio e longo prazo?

Isso depende inclusive da evolução da guerra. Nossa avaliação é que a guerra vai intensificar porque os russos vão adotar uma política agressiva de bombardeamento que vai atingir centros civis, inclusive Kiev. Mas temos que observar como a opinião pública vai evoluir. Hoje, o sentimento é de que as sanções são uma medida importante para a Rússia dar um passo atrás no conflito.

Mas Putin deve parar a guerra por causa das sanções?

Se as sanções tiverem o apoio dos países europeus, podem reduzir dramaticamente o fluxo de recursos para o governo russo. Agora, eu não acho que a Rússia vai desistir da guerra por causa disso. Mas é possível que as sanções criem um ambiente tão duro para a população russa que isso represente um desafio para Putin.

Houve casos de sucesso com a imposição de sanções no passado, em outros países, para provocar uma mudança de regime?

Não. Ditadores não deixam o poder por causa de sanções.

Isso não aconteceu na Venezuela e no Irã, ambos países que estão sujeitos a sanções, certo?

É verdade. Mas no caso do Irã há a questão do acordo nuclear. Talvez em função das sanções o Irã tenha concordado em se sentar à mesa para discutir a questão nuclear. Na Venezuela, foi um fracasso. Se pensarmos no motivo para essas sanções, algumas vezes são para forçar uma mudança de regime e outras vezes representam uma punição. Há um estudo do Instituto Peterson sobre sanções que aponta que só em um terço dos casos as sanções alcançam o resultado esperado. É importante ter um debate sério sobre esse assunto. No caso da guerra na Ucrânia, há a percepção de que a guerra pode criar riscos que precisam ser endereçados de imediato para não repetirmos erros do passado.

O senhor está se referindo à Segunda Guerra Mundial, quando os países europeus demoraram a perceber as reais intenções de Hitler?

Sim. Desde a Segunda Guerra, há a noção de que as fronteiras precisam ser respeitadas. Isso não impediu que coisas horríveis acontecessem, mas esse princípio nos protegeu, especialmente na Europa. Mas hoje vivemos num mundo completamente diferente. Li em algum lugar que essa é a guerra do Tik Tok. É impressionante o papel das mídias sociais nessa guerra.



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