‘Mais Que Amigos’ é uma comédia romântica em sua essência, para o bem e para o mal – Série Maníacos


A Marvel sempre foi acusada de usar uma fórmula para os roteiros de seus filmes. Mas bem antes dela, um gênero cinematográfico já usava e abusava de um padrão narrativo para suas obras, a comédia romântica, que chegou no seu ápice nos anos 80, 90 e 2000. Nele um casal se conhece, geralmente por acaso, se apaixona, mas é obrigado a se separar (seja por um ex vingativo ou um desentendimento qualquer), para logo terminarem juntos no terceiro ato.

É o tipo de filme, que mesmo se sabendo o final, consegue cativar o público alvo a assistir cada nova produção que é lançada. “Mais que Amigos” (Bros, 2022) consegue subverter em alguns pontos essa fórmula por colocar um casal gay como os apaixonados da vez, mas também coloca em discussão pontos interessantes sobre a vida amorosa moderna no processo.

Bobby (Billy Eichner) é um podcaster e diretor de museu orgulhoso de sua identidade e engajado na causa e na história LGBTQIA+, às vezes até demais. Aaron (Luke Mcfarlane) é um advogado especialista em testamentos, que poderia se passar facilmente por hétero, já que é o típico “homem branco cis praticante de crossfit”. Os dois se conhecem numa festa de lançamento de um app de pegação e contra todas as chances se apaixonam. Mas ao mesmo tempo que começam a cair de amores, também precisam lidar com as próprias feridas e problemas do passado.

Pela sinopse já é possível identificar que o filme escrito por Eichner, em conjunto com o diretor Nicholas Stoller, se utiliza de um dos pontos principais de qualquer comédia romântica: os opostos se atraem. É interessante ver todo o flerte desajeitado entre os personagens de Eichner e Mcfarlane, com toda a atração visível entre os dois, mas também uma grande falta de noção.

Entre orgias, mancadas, viagens e alguns surtos, fica evidente que a voz da narrativa é moldada a todo tempo pela mente rápida, ácida, certeira, mas nem sempre eficiente de Eichner. Ao mesmo tempo que o filme dá visibilidade, também critica estereótipos impostos pela própria comunidade aos subgrupos existentes nelas. É a visão de um homem branco gay, mas também há espaço para vozes trans, bi e lésbicas, de várias etnias, representadas aqui por nomes como TS Madison, Miss Lawrence, Jim Rash e Dot-Marie Jones.

Mas ao mesmo tempo que essa acidez toda funciona, em algumas partes (principalmente no final do primeiro ato e no meio do filme) pode acabar cansando o espectador, por não ter um respiro, uma pausa entre uma tirada cômica e outra. Algo que logo se torna perdoável quando o roteiro caminha para a virada final, em que os personagens ponderam sobre o seus atos e decidem se a relação vai pra frente ou não.

É o clichê da aceitação, mas trabalhado de um jeito bem franco e honesto. Enquanto Bobby se esconde por trás de toda a confiança como uma armadura para que dores do passado não sejam repetidas, Aaron vive no contexto da homofobia internalizada, se contorcendo mentalmente para não aceitar traços mais suaves e almejar o ideal de masculinidade imposto pela sociedade. É uma sacada bem inteligente para se discutir numa comédia romântica, ainda que não com todas as letras.

Com coração e empatia, “Mais que Amigos” conta uma história sem vergonha de rir dela mesmo e de seus personagens (há cenas ótimas repletas de metalinguagem não só com Eichner, Macfarlane e seus trabalhos, mas também com figuras e ícones da comunidade LGBTQIA+ americana). De resto, é uma comédia romântica em sua essência, para o bem e para o mal. Ainda que consiga discutir temas relevantes, também sofre das resoluções apressadas (mas sólidas) e momentos de barriga narrativa, como todo filme do gênero. É uma aposta arriscada de Eichner e da Universal, que pode não agradar a todos, mas com certeza abre um precedente para que novas histórias do tipo sejam exploradas na tela grande e para um grande público, como deveriam ser.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Universal Pictures Brasil



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