My Way/The Shaun Show – Série Maníacos


Que essa temporada de The Good Doctor se perdeu e precisa de uma renovação não é novidade. Como diz Isabela Boscov, é necessária uma renovação, uma reforma total para fazer algum sentido no presente. E possivelmente, nessa ideia, David Shore abriu sua caixola e pensou que por mais louco que pudesse parecer, algo diferente deveria ser feito.

A metalinguagem de vermos filmes, séries ou documentários serem feitos dentro de uma obra televisiva sempre pode trazer boas histórias e momentos de conforto ao assistirmos referências que nos fazem sentir parte daquele roteiro. Um bom exemplo foi a mistura de formatos de gravação 21:9 e 16:9 para nos dar impressões distintas ao assistirmos, bem como nos guiar para o que deveríamos sentir no momento.

Filmando no formato 21:9, conforme acontece desde o piloto, a série coloca o espectador em um lugar comum, familiar e com a impressão de pertencimento, tendo todas essas sensações quebradas quando a tela apresenta bordas pretas em cima e embaixo, no formato 16:9, o mais utilizado para gravar documentários. Com a mera mudança de formato, o espectador já é movido a se sentir como alguém que observa uma vida comum se desenrolar na tela, sem aquele imã que te puxa e te faz sentir uma parte do que está sendo gravado.

Utilizando essa quebra ao longo do que vai acontecendo, é possível ver como a visão sobre Murphy sempre foi extremamente enviesada, uma vez que ele é o protagonista e quase tudo que acontece na série é vista primeiro sobre seu ponto de vista. É extremamente interessante ver como os roteiristas e o diretor optaram por não incluírem os espectadores nas visões de Shaun, ainda que não estivesse sendo mostrada no formato 16:9, colocando pela primeira vez os fãs da série no lugar que eles realmente estão, fora da mente de Murphy e alheios ao que ele vê e sente, igual a todos os outros personagens.

Uma boa ideia dos roteiristas foi apresentar a possibilidade do reality show como uma forma de mostrar a representatividade e o conto de fadas que claramente vem sendo a ideia deles desde o início, porém quebrar um pouco essa expectativa no episódio seguinte ao mostrar de uma forma mais fria como a relação de Shaun e Lea não tem um passado perfeito e que quando não se vê o que se passa na mente de Murphy e em seus momentos sozinhos, é possível entender as frustrações e momentos de raiva que outros personagens já tiveram com ele.

Não obstante, ainda que a ideia tenha sido boa, fica o questionamento se foi bem executada. Não me entenda mal, os dois últimos episódios foram um dos melhores da temporada, trazendo um pouco de novidade e lógica em um mar de patacoadas sem sentido, entretanto a série ainda romantiza demais o início do relacionamento do Shaun e Lea, sem realmente dizer o quão tóxico ambos foram em certos momentos, inclusive colocando o peso todo nela sem dar a devida responsabilidade às atitudes abusivas e perseguidoras que ele teve.

Além disso, o documentário deixou claro que embora os outros personagens tenham seu carisma, a série focou no relacionamento de Shaun e Lea, tendo a medicina e os demais personagens com a mera função de ajudarem a promover qualquer problema que o casal tenha a resolver, e às vezes servir de momento cômico ou dramático que não dura mais do que 2 episódios.

A simpatia extrema de Hollis Jane Andrews como Sophie contribuiu e muito para os últimos episódios terem uma leveza e comicidade no meio de reflexões jogadas, às vezes quase que de forma forçada, na tela; e a volta de Claire no fim foi brilhante para fazer todos acabarem com um sorriso no rosto ao ter uma migalha da personagem que era a queridinha de todos. Todavia, essas duas forças são temporárias e não servem de solução para uma série que foi renovada, mas ainda não soube se renovar.

Admito que um pedaço de mim ficou otimista ao ver que tratarão sobre violência doméstica, um tema importante e ótimo para fazer um drama inteligente e reflexivo, que serve como um bom produto de tv, bem como alerta para um problema sério; e principalmente, fiquei feliz de ver que darão tempo para uma enfermeira, algo que todas as séries médicas pecam e claramente não aprenderam quando beberam da fonte de E.R., afinal não adianta existirem médicos sem enfermeiros e é um absurdo como 99% das séries os ignoram.

É difícil confiar que não estragarão com esse plot após a tristeza que foi quase essa temporada inteira, porém ainda existe esperança.



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