RuPaul’s Drag Race surpreende com uma temporada 14 cheia de talento e imprevisibilidade – Série Maníacos


Um dos melhores Rusicals, o pior Snatch Game, o desafio sem nenhum bottom, um onde todas são bottoms, drag hetero, drag machucada, primeiro Top 5… 14 anos depois e a corrida segue mostrando toda sua relevância.

Em sua passagem pelo Brasil, esse ano, Bianca Del Rio provou dois pontos: ela é uma estrela capaz de lotar qualquer espaço e enlouquecer milhares de fãs… e que embora tenha repetido diversas vezes que “a Drag Race tem que acabar”, a própria realidade de seu show dizia o contrário. A corrida criada por RuPaul continua, ano após ano, levando suas participantes ao estrelato, transformando a arte drag num negócio relevante no mercado e do outro lado – o lado “socioemocional” – inspirando e contribuindo para o escopo de diversidade que a mídia e a cultura pop não podem perder jamais.

Os comentários de Bianca são, também, um eco da internet. Enquanto era cult, a Drag Race só recebia afeto e aprovação. Com o sucesso e a popularidade, o programa logo se tornou uma pedra com a qual o exercício da problematização precisou lidar. Muitas queens sendo “paridas” para o mundo no que as mais antigas – é claro – consideram um questionável “senso seletivo”. O argumento da banalização é até legítimo… Mas, é ingênuo considerar, também, que ser uma drag de sucesso é um caminho que não precisa passar pela Drag Race. Ser bem sucedida na sua cidade, no seu estado, no seu país… vá lá. Lotar teatros por todo o continente americano, como Bianca fez recentemente, é algo para quem tem talento, esforço… e vitrine. Isso não só para quem é Drag, mas para quem é artista.

Então, por que essa ânsia de acabar com a corrida? Por que essa fábrica de sonhos realizados precisa ser fechada? Sempre me pergunto se as queens que já passaram pelo programa continuariam dizendo que a Drag Race tem que acabar se ainda não tivessem passado por ela. Pensando bem, é até um pouco cretino desejar tal coisa. Os aspectos negativos estão ali, claro. Algumas coisas poderiam melhorar, claro. Mas até mesmo no que diz respeito ao entretenimento, as surpresas continuam vindo e a experiência continua mágica. A temporada 14, inclusive, talvez tenha sido uma das mais imprevisíveis da história do show. Tem que acabar por quê mesmo??

Daya Bad

A décima quarta temporada da Drag Race manteve uma tendência declarada de RuPaul nos últimos anos: dar todo o tempo de tela possível para as participantes. Assim, mais uma vez, a primeira eliminação demorou para vir, sacramentando que muitas vezes uma segunda chance pode mudar muito o cenário futuro. Imaginem como seria a temporada se Daya Betty tivesse mesmo saído no primeiro episódio de seu grupo? O casting sempre precisa de participantes que antagonizam, do contrário não se criam narrativas dramáticas que sustentem o sucesso da temporada. Daya cumpriu esse papel da megera que fica questionando o sucesso ou a sorte alheia para nosso entretenimento. Mas, demonstrou no Reunion que a conta chegou cara e que ela não estava disposta a pagar.

Do outro lado, mesmo sem ser a vilã, Jasmine se envolveu em 90% das tretas que aconteceram nos episódios. A diferença é que seu jeito carismático e delusional acabou tornando-a querida pelo público. É difícil para alguém como ela precisar ir até uma competição televisionada ser confrontada com as próprias limitações. Ao mesmo tempo, há algo de puro na forma como Jasmine filtra seu mundo e suas habilidades. O que a torna, aliás, mais simpática que Jorgeous. Mesmo que fosse uma das preferidas de RuPaul, Jorgeous não entregava metade do que Ru dizia que ela entregava, era salva em contextos absurdos e tinha uma certa arrogância na forma como abraçava a consciência dessa realidade.

Sabemos que o “delusional” é palavra de ordem nos elencos da corrida. Deja, por exemplo, passou a temporada toda mergulhada em looks ruins sem nem se dar conta disso. Bradava a vitória num Snatch Game em que ganhar não significava nada (por simplesmente não haver concorrência). É sempre melhor abraçar as limitações mesmo que você vá ficando (como Adore Delano fazia na sexta temporada), do que inventar uma fan fic de destaque sem levar em consideração fatores que não tem a ver só com talento.

Vejam Angeria, que começou extremamente bem, mas foi caindo e caindo a partir da metade da temporada. Acredito que, de certa forma, a maneira como ela parecia perturbada no desafio final era um indício de que ela sabia que não vinha bem nos episódios há um bom tempo. Ela fez um caminho decrescente, enquanto Daya fazia um crescente. Contudo, apesar da austeridade, Angeria permanecia em conflito entre ser confiante e ser, no mínimo, atenta. Até mesmo a raiva constante de Daya também partia de um certo lugar de compreensão do que não estava bem na performance dela. Tudo passava pelo pior filtro e ainda havia muita cegueira. Mas, era uma reação humana e latente contra a realidade da limitação.

Shantay You Still Stay

Estruturalmente, a temporada seguiu igualmente surpreendente. No começo, a tentativa de RuPaul em promover sua barra de chocolate irritou alguns fãs. Meses depois, um bordão maravilhoso estava criado: It’s Chocolate. Um exemplo perfeito de algo delicioso, que no contexto errado, pode ser um pesadelo. Sortuda que só, Ru ainda conseguiu que a barra dourada só aparecesse lá pro final da temporada, salvando Bosco, que naquele momento vinha de uma batalha árdua para permanecer na competição. O uso perfeito de um twist, que fechou-se com a própria RuPaul dizendo o bordão oficial do chocolate, logo na apresentação da finale.

Também tivemos a temporada com mais salvações de eliminação da história. Além da barra, tivemos double shantays, tivemos um episódio onde todas foram bem e ninguém ficou entre as piores (algo realmente histórico) e ainda tivemos o episódio do Snatch Game, em que ninguém acabou saindo, já que a eliminação ficou por conta das batalhas do episódio seguinte. Se formos considerar o Top 5, o episódio do desafio final também não mandou ninguém embora e entrou nessa soma de semanas sem sashay. Aborrece vocês? A mim não. E para falar a verdade, gosto muito que tenham acontecido coisas que mudaram a estrutura da temporada e mostraram que decisões precisaram ser tomadas de última hora, seja porque elas foram muito bem ou muito mal.

Alguns dos desafios foram inspiradíssimos. Daytona era flatulento, mas os gases inseridos na edição salvaram aquele velho roteiro ruim das paródias. Em “Save A Queen” Ru deu mais tempo de tela para Tempest, James e Kamorah; o que sempre me comove muito. Mesmo desafios que considerei um pouco chatos, como o dos grupos dos anos 60, foram muito bem produzidos. Eles também acertaram no Roast, no desafio da DragCon e como esquecer do mini-challenge em que uma bola precisava ser estourada na bunda do Pit Crew? Até mesmo a bomba do Snatch Game deu certo em termos de impacto para o episódio. Logo em seguida, o BRILHANTE Rusical inspirado em Moulin Rouge trouxe de volta uma evidência inegável sobre o elenco desse ano: elas são muito talentosas.

Willow Pill

A vitória de Willow Pill era esperada… e merecida. Entre os nomes do Top 5, ela era a mais fluída durante a temporada. Angeria começou bem, mas foi caindo no decorrer das semanas. Bosco chegou a ser eliminada. Daya Betty, idem. Lady Camden, a concorrente mais forte de Willow, também demorou um pouco a despontar como favorita. Miss Pill, contudo, mostrou a que veio desde aquela macarronada jogada dentro da banheira. Sua drag é estranha, intrigante, provocativa, mas acima de tudo: tem um conceito artístico e um nível de criatividade que ninguém no elenco conseguiria alcançar.

Foi refrescante, aliás, termos uma final sem aquele monte de batalhas de lipsync que já vinham vazias há tempos. A décima quarta temporada trouxe tudo de melhor de volta: um Reunion presencial cheio de lavação de roupa suja e uma finale com apresentações que mostravam melhor quem eram aquelas últimas competidoras. Seguindo a trilha das apresentações era perfeitamente possível saber onde tudo ia chegar. Cada uma delas foi fiel ao espírito – e às chances – de cada uma das corredoras.

Angeria, como sempre, profissional. Mas, genérica na criação do número. Bosco seguiu pelo mesmo caminho. Daya preparou um número que dizia muito sobre quem ela era, mas concordo com o Pit Stop dizendo que aquela língua para fora já estava cansada. Daya estava cheia de estigmas… Vilã, eliminada, cópia de Crystal… A vitória dela era praticamente impossível. Camden veio com um conceito incrível, muitíssimo bem ensaiada, com um Ruveal contextualizado… mas com uma wigline mais cagada que a de Robbie Turner. Me distraiu completamente da performance, que foi sim ótima.

A questão é: como competir com aquela esquisitice deliciosa de Willow? Os rostos se revelando na roupa pareciam uma repetição do Ruveal de Miss Odly. Mas, do nada, ela revela um outro rosto, no meio das pernas, para provocar uma reação de choque que elevou a performance para outro nível. Na hora de batalhar com Candem, conseguiu equilibrar mais estranheza com uma pitada de sensualidade. A cambalhota final foi on point. Tinha que ser dela, era para ser dela e ela mereceu cada spot.

Assim, a décima quarta temporada de RuPaul’s Drag Race encerrou sua trajetória com imprevisibilidade e diversão. Esse papo de “cansaço”, de “saturação”, é parte de uma desatenção ao que esse programa ainda representa (e defende). Sempre me fascina que um setor da opinião pública prefira “exterminar” ao invés de “evoluir”. Nada nessa temporada gritou esgotamento, mas ainda é possível ouvir os ecos de quem precisa “cortar cabeças”. Foi uma temporada deliciosa. Foi uma vencedora que berra o futuro. Discorde à vontade, mas para se incomodar menos é muito simples: faça acabar para você e desligue a TV. #JustSaying

O All Stars “The Avengers” vem aí… Se eu não conseguir fazer as reviews semanais podem me pegar na saída. Mal posso esperar para ver essa Olimpíada.

Encontro vocês aqui.

PS: Abaixo, o tradicional vídeo com a reação REAL da vencedora.



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