Snatch Game – Série Maníacos


Is this another Moonson Season?

Na oitava temporada de RuPaul’s Drag Race, anos atrás, Bob The Drag Queen inaugurou uma tendência. Se Chad Michaels havia trocado de peruca no Snatch da quarta temporada, Bob foi mais além e trocou de personagem. Bob fez Uzo Aduba, que na época era um hit em Orange Is The New Black; e depois fez Carol Channing, a despeito de não ter nenhuma semelhança com a própria escolha. E venceu. De lá para cá, apenas Nina West e Widow Von’Du repetiram o feito dentro de uma temporada regular. Nina foi bem, Widow nem passou perto.

Também foi na oitava temporada que pela primeira vez uma participante falou claramente nos confessionals o que pensava sobre o desafio. Desde que foi inventado, o Snatch Game é uma pedra no sapato de 90% das queens. Ele não só é obrigatório, como é decisivo para várias delas. Imitar alguém pode ser uma das coisas mais difíceis de se fazer na vida, porque, tal qual o canto, você sabe fazer ou não. Não adianta fazer um estudo minucioso como o da Valentina e acabar sem graça. Se você tiver a veia do humor, pode nem ficar parecida – como Jujubee de Eartha Kitt – e ainda assim ser hilária. O fato é que esse não é um desafio para quem é mediano. Porém, os medianos podem conseguir passar por ele com um pouco de dedicação e preparo.

Foi o que Acid Betty não teve naquela temporada. Então, em seu confessional sobre o bottom, ela disse: “Eu concordo que eu fui uma droga no Snatch Game. Mas, eu também acho que o Snatch Game é uma droga”. Me lembro do meu choque quando ouvi aquilo na época, porque, até então, as meninas criticavam a própria atuação ou as atuações das outras, nunca a natureza do jogo. Entretanto, secretamente, muitas deviam pensar a mesmíssima coisa. A obrigatoriedade de fazer RuPaul rir vestindo uma persona distante de você parecia mesmo, em primeira instância, um pé no saco. O Snatch Game funciona para treinar raciocínio, veia cômica, improviso e capacidade de autodissassociação. Ele não é fácil.

Faz todo sentido que numa temporada All Winners a cobrança seja ainda maior; e a ideia de exigir que elas fizessem DOIS personagens foi condizente com o que se espera de uma campeã. No ateliê, era perceptível como Jinkx e Trinity estavam à vontade com essa exigência, enquanto Yvie – uma das poucas vencedoras que errou feio no desafio – escondia o próprio pânico. O que se faz de errado no Snatch persegue a vida da competidora… Mas, o que se faz de certo também. Jinkx foi a primeira lenda do desafio, e se havia um episódio que poderia mudar TUDO na carreira e na reputação construída por Miss Moonson, era esse. O Snatch Game era a aposta definitiva para ela. A mais alta.

Snatching

No primeiro elenco tínhamos:

Mike Tyson: O trabalho mais completo de Monet. A Maya Angelou que ela fez na temporada 10 não foi nada demais, mesmo ela dizendo que sim. O Mike Tyson que ela apresentou tinha estudo de personagem e fez piadas bem contextualizadas. Nada que vá perdoar aquela Whitney, mas justo.

Madame: Raja chegou com duas caracterizações impressionantes, mas nenhuma delas era engraçada. Madame poucos de nós conhecem, mas diferente do que Alaska fez com Mae West, nesse caso era preciso conhecer a personagem já que Raja não tem veia cômica para fazê-la funcionar sozinha.

Joanna Lumley: The Vivienne ficou nas raízes e eu conheço Joanna de Absolutely Fabulous, que é um dos melhores sitcons da história da TV. Ela fez um trabalho digno, mas depois de seu Trump, esperávamos muito mais.

Satan: Trinity pode ser péssima em roasts, mas a cretina arrasa em seus Snatchs. Só a piada de que Bianca Del Rio era sua “protegé” já merecia um Emmy. E mais uma caracterização sensacional.

Natasha Lyonne: Jinkx estava muitíssimo parecida com Natasha, que é toda um personagem mesmo. Ela é, inclusive, muito parecida com quem ela fazia em Orange e com quem ela faz em Boneca Russa. Jinkx fez um trabalho bom aqui. A mágica viria depois.

Rico Nasty: Yvie caprichou no personagem seguinte, mas Rico Nasty era basicamente uma versão de si com mais gritos e caretas.

Elsa Majimbo: Surpreendente a escolha de Shea por uma celebridade que não dava muito material para que ela se desenvolvesse. O Flavor Fav que ela fez no All Stars 5 foi um sucesso e sua escolha para essa edição pareceu um pouco discreta demais.

Prince: Jaida é conhecida por trabalhar com o sexy, com o erótico; e isso se encaixa perfeitamente com a vibe de Prince. Contudo, em um certo ponto ela ficou um pouco presa na mesma melodia e perdeu força.

Apesar de ser uma rodada com menos personagens marcantes, nenhuma delas ficou no vácuo, nenhuma delas ficou perdida, nenhuma delas saiu de cena sem ter feito RuPaul rir nem que fosse uma vez. Na segunda rodada, em seguida, ficamos desse jeito:

Catherine Tate: O investimento em caracterização que Vivienne apresentou foi impressionante. Um lance Hollywood mesmo. Nessa rodada Viv estava muito mais solta e fez interferências bem engraçadas.

The Boogieman: Outra caracterização on point. Embora ainda não estivesse engraçada, Yvie parecia mais à vontade e se divertiu. Isso faz diferença no final das contas.

Leslie Jordan: O eterno Beverly Leslie de Will & Grace foi outro acerto de Trinity. Além da caracterização, Trinity tinha um monte de piadas boas, que, de novo, giravam em torno de ter um personagem gays nas mãos.

The Lady Chablis: Outra personificação genérica de Jaida (e novamente sexualizada). Não flopou terrivelmente, mas estava bem abaixo do que as colegas estavam mostrando.

Miss J: Shea fez uma escolha um pouco melhor dessa vez. Como eu assisti America’s Next Top Model, a figura de J. Alexander estava fresca pra mim. Ela fez boas piadas, acertou o carão e se redimiu.

Diana Vreeland: Dando uma surra de caracterização em Robbie Turner, Raja apresentou uma Diana melhor construída que seu primeiro personagem. Havia uma quantidade grande de piadas que dependiam, novamente, de saber quem ela era. Mas, foi um ótimo trabalho.

Martin Lawrence: O que Monet se dedicou para fazer Mike Tyson ela não se dedicou para fazer Lawrence. Assim como Jaida, não foi uma tragédia, mas passou longe de ser divertido.

Judy Garland: Se Jinkx foi a primeira a fazer o Melhor Snatch Game da história da Drag Race, ela agora acaba de renovar esse posto. Não só sua Judy era hilária, como era um verdadeiro primor de interpretação. Jinkx tinha o olhar certo, a postura certa, a cadência bêbada certa, tinha conhecimento sobre a atriz, tinha arsenal pronto e brechas para improviso; e não bastasse tudo isso, ainda cantava as músicas de RuPaul como se fosse Judy. E se tudo isso já era brilhante, ela ainda trouxe o Dave de volta. Foi no Makeover de sua temporada que Jinkx terminou de conquistar a audiência, criando um laço afetivo lindo com seu veterano soro-positivo. O trabalho dela nesse Snatch Game foi IRREPRENSÍVEL e nos acordou para o que até então parecia só um outro sonho: Jinkx pode ganhar isso de verdade; e a perspectiva de ter uma drag talentosa como ela sendo “The Queen of All Queens” parece certa, parece condizente com a força desse título.

Bloqueadas

Novamente a passarela foi um deslumbre. É possível apontar algumas coisas, claro. Mas, o fato é que ninguém veio para essa temporada com menos do que o máximo. Gostar ou não do vestido de Monet ou achar ou não que Jinkx vestia algo muito ultrapassado, são questões que passam muito mais pelo gosto de cada um. Mesmo assim, nem o vestido de Monet e nem o de Jinkx eram mal construídos. Havia polidez e segurança na forma como eles foram apresentados. Se os jurados não começarem a ser mais exigentes, as críticas ficarão no mesmo tom muito em breve.

Na dublagem colocaram aquela que talvez seja a música mais esquisita da Adele (e que eu só escuto dentro da minha cabeça na versão do Glee) e que saiu menos adequada à interpretação de Trinity. Na hora de bloquear, Jinkx mostrou que está com o jogo em mente e bloqueou quem já tinha uma estrela, Shea. Contudo, as meninas continuam reagindo a tudo com muita leveza. Talvez por saberem que ninguém vai sair disso realmente perdendo elas não estejam ligando mesmo para os blocks. Pelo menos não por enquanto. Espero que em breve elas se importem.

É preciso levar tudo um pouco a sério, pelo menos um pouco, já que estamos diante do que já é um clássico dos realities de habilidades. Revivemos fronteiras importantes e estabelecemos outras. Curiosamente, foi aqui, nessa “edição diamante” do jogo, que outra tendência foi lançada: a de personificar o que não foi personificado por pessoas. Até então, apenas Gigi Goode tinha feito algo parecido, com aquela robô. O Snatch Game All Winners nos apresentou um elenco que continha um boneco e dois seres mitológicos, algo que terminou de reforçar a iconicidade dessa competição, que agora sai de um lugar de recorrência e estabelece um novo padrão.

Se havia dúvidas do que é esse jogo, elas acabaram. Estivemos diante da análise derradeira: O Snatch Game do All Winners traduziu o que é o desafio. As palavras de Acid Betty não ecoam por aí nunca mais.

Diante disso tudo eu só posso terminar esse texto dizendo uma coisa: #TeamJinkx



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