The Realness of Fortune Ball / Fairytale Justice / Draguation Speeches / Total Ru-Quest Live – Série Maníacos


O All Stars All Winners ainda é o nosso sonho colorido, mas estamos preparados para admitir que ele tem sido um pouco… chato?

Quando o novo formato do All Stars foi vazado para a imprensa, todos sabíamos que ele provocaria um efeito colateral inevitável: ele esvaziaria a tensão entre as vencedoras. Sem o medo de ser eliminado, muito pouco sobra para estabelecer a angústia necessária para a gênese de um reality show (já que todo reality show é sobre evitar a própria eliminação). As competidoras já sabem que terão o mesmo tempo de tela e, sejamos honestos, tempo de tela é o verdadeiro prêmio da competição. A coroa duplicada não tem efeito prático nenhum e 200 mil dólares não são muita coisa para quem já venceu.

Se os episódios 1 e 2 vieram cheios da nossa expectativa e euforia, o 3, 4, 5 e 6 diminuíram o ritmo e acabaram deixando mais evidente que essas tensões têm feito falta na receita final. Também não ajuda que o máximo que tem acontecido no ateliê seja a edição cômica da aliança secreta entre Trinity e Monet (que todo mundo já sabe que não é secreta). A comicidade é uma coisa boa, é claro; mas toda essa edição só tem feito brincadeiras com o que devia nos deixar minimamente apreensivos. Toda a organização do desentupidor não é nem meramente eficaz em nos trazer isso de volta.

O All Stars, contudo, sempre foi um terreno de experiências. A temporada vai andar, vai acontecer, mesmo que essa suavidade se mantenha até o fim. As especulações de que os jurados estão sendo menos exigentes que o normal até tem sua legitimidade, mas isso já vem acontecendo progressivamente nas temporadas regulares. Se o vestido de bolsas de La La Ri tivesse acontecido até antes da sétima temporada, ela provavelmente teria sido eliminada ou chamada à atenção com muito mais ênfase. Aquele era um caso para desclassificação sumária, mas ela não só não ouviu críticas duras como também se salvou no lipsync. Os tempos são outros, a política é correta… Mas, até que ponto isso tem feito bem para o entretenimento?

Unfortune Ball

Retrospectivamente falando, o desafio do baile, por exemplo, não aumenta tensões interpessoais, já que ele exige habilidades individuais. Como o ateliê não tem nenhuma rivalidade estabelecida, a edição foca única e exclusivamente em vigiar quem poderia ir mal nesse desafio, ou seja, Jinkx. Não me entendam mal, o episódio do baile foi montado de um jeito divertido. Tivemos o moço do Pit Crew com uma pose esquisita e inútil no mini-challenge e tivemos a presença de Vanna White pegando as meninas de surpresa na passarela. Entretanto, o “oba oba” parece esvaziar a competitividade.

Ao invés disso, a camaradagem. Foi um pouquinho frustrante ver que Jinkx não investiu nenhum tempo da carreira em aprender a costurar. Mas, duvido muito que ela esperasse por uma temporada All Winners. Ela precisou de ajuda, mas a ajuda, nesse formato, nunca é desinteressada (não vamos esquecer que uma blusinha salvou Roxxxy de uma eliminação no All Stars 2). Trinity veio a seu socorro para garantir que quando a ameaça do block chegasse, aquela ajuda fosse um belo álibi. Não estamos tirando da equação a totalidade de suas boas intenções; mas Trinity também não é o tipo de participante que toma decisões sem cálculo. O problema todo é que até mesmo a aliança com Monet só soa jocosa ao invés de ter uma função estratégica.

O baile foi interessante… Na categoria de vestidos inspirados em Vanna White (a moça que pede para revelar as letras na Roda da Fortuna), Monet estava simples demais e a interpretação de Yvie era muito distante da persona homenageada. Raja acabou sendo a que mais captou a atmosfera da tarefa, com um cabelão anos 80 simplesmente maravilhoso. The Vivienne e Trinity também estavam muito elegantes, mas talvez o elemento humor tenha tornado Raja mais forte.

Na categoria de juntar nomes, Shea errou feio e isso até reforça um pouco de como ela tem tido menos “uau moments”. Aquela roupa não foi feita com polidez. Não dá para entender, também, por que Monet não foi chamada atenção por conta da simplicidade no look que representou Bob The Drag Queen. Jinkx e Jaida tinham os melhores looks dessa categoria.

Jinkx, inclusive, conseguiu escapar do vexame com uma roupa ao mesmo organizada. Shea fez um vestido de noiva entediante e Monet merecia outra chamada, com aquele look verde que tinha cortes complicados no acabamento. Raja foi quem novamente chegou na passarela com uma roupa de cair o queixo. Inacreditável pensar que ela fez aquilo tudo do zero. Trinity também se saiu muito bem, mas Raja tinha um toque de elegância e glamour que ia mais além. Porém, ela não foi escolhida pelos jurados (provavelmente por conta da Olivia Newton John Waters).

Jaida venceu a dublagem e bloqueou Jinkx. De fato, todas elas deveriam bloquear Jinkx daqui até o final. O episódio seguinte deixou claro que se tem uma queen que vai permanecer no top, é Miss Moonson. Está na hora de parar de brincar e lutar de verdade – não só com talento – pelo top 4.

Fairytale Justice

O episódio Fairytale Justice para mim foi um tormento – como costumam ser as paródias e desafios de improviso. Quando tem roteiro do que elas vão dizer é ruim, mas quando o roteiro é apenas um indicativo de ações, pode ser pior. Ou a coisa é completamente gritada ou completamente monocórdia. Enquanto via os jurados elogiando o trabalho, ficava me perguntando onde estavam aquelas coisas engraçadas todas que eles tinham feito. Algumas delas estavam defendendo personagens com segurança e com humor, mas nada era realmente engraçado. Desse desafio ficou a orelha de Jinkx caindo e a forma como o nariz de Monet estava mal colocado (uma pausa para como Ru estava bizarro com aquela orelha de elfo).

Depois de sofríveis minutos, aquela chatice acabou e pudemos ir para a passarela. O tema dos espinhos foi responsável por dois momentos inesquecíveis da passarela: Yvie parecendo um alienígena de Um Lugar Silencioso (só que deslumbrante); e The Vivienne com look absolutamente incrível. Raja, por outro lado, errou pela primeira vez, com uma roupa que não tinha identidade, era confusa e mal organizada. Monet estava com um vestido que era 2 números acima e Trinity com o vampiro teve a ideia mais fácil de todas.

O block de Viviene em Monet ao menos nos ofereceu o mínimo de rivalidade, quando, no episódio seguinte, ela revelou que teria bloqueado Jinkx. O que faz todo sentido, é claro. Se eu estivesse por lá, Jinkx seria a bloqueada em todas as vezes que tivesse a oportunidade. Está muito evidente que ela vai ascender como uma favorita à vitória, desde que melhore um pouco suas habilidades como lipsync performer. Nessa performance com Vivienne ela entregou a vitória. Se a final depender mesmo de resultados de lipsync, Moonson pode estar em apuros.

Draguation Speeches

Essa rivalidade Jinkx X The Vivienne foi uma tentativa mais perceptível de senso de competição. RuPaul tentou apimentar as coisas com a boa ideia de que cada uma das vencedoras do desafio ganharia 2 estrelas, uma para si e outra para dar a uma das colegas. O block do desentupidor também resultou em um certo “poderzinho”: Monet pôde escolher a ordem das apresentações. Ela até foi estratégica na forma como posicionou Jinkx, mas, outra vez, o nível de talento impede sempre que os resultados sejam muito discrepantes.

Esse tipo de desafio é muito mais legal de assistir, sobretudo porque as queens não dependem daqueles roteiros horrorosos. O discurso para uma formatura imaginária foi uma boa ideia, mas senti falta da plateia. Algumas foram mais cômicas que sérias, mas as que foram mais sérias acabaram soando menos competentes na tarefa. Foi o caso de Trinity. Raja, por outro lado, criou um personagem inteiro que só falou coisas loucas, mas que foram engraçadas o tempo todo. Não foi inspirador, mas foi eficiente do ponto de vista do entretenimento.

Jinkx surgiu com um uniforme de bruxa e já começou maravilhosa anunciando que tinha ido a uma faculdade diferente da que tinha imaginado. O roteiro que ela criou sobre o atropelamento em Amsterdã não foi tão engraçado, mas Jinkx vende o que quiser com carisma. Achei o monólogo e a interpretação de Viv melhores e teria colocado ela no topo ao lado de Raja.

Na passarela o tema era “véu” e Monet me entra de primeira com um pano vermelho que ela arrancou logo antes do primeiro passo. Monet, Monet… Foi uma homenagem involuntária ao “ruveal” de Alaska no All Stars 2 (que foi literalmente entrar com um saco de lixo e depois arrancar). Os looks de Yvie e Raja eram mais interessantes e menos literais. Viv provavelmente perdeu pontos por conta da roupa bondage monocromática. As borboletas de Jinkx faziam um lindo efeito e sempre é bom ter gente usando as pobrezinhas corretamente e sem massacres envolvidos.

A dublagem foi um fiasco. Jinkx venceu simplesmente porque Raja parecia não estar nem um pouco interessada nos 10 mil dólares que ganharia. Ela não estava fazendo aquilo para se sabotar, como Charlie Hides fez na Season 9. Mas, tampouco se dedicou a dublar e parecia mais alguém numa festa dançando e acompanhando a música. Na hora do block, nenhuma surpresa; chumbo trocado e The Vivienne bloqueada de ganhar uma estrela na semana seguinte.

The Ru-Quest Live

A gana de ter alguma coisa para chamar de “jogo” fez com que todos nós esperássemos ansiosos para saber quem ganharia as estrelas de Raja e Jinkx. Uma delas seria Yvie, é claro. Dar uma estrela para uma competidora acaba sendo não só um jogo social, mas também uma chance de constranger as possibilidades de block. O ideal seria dar uma estrela para vencedoras potenciais e impedi-las de bloquear sem culpa. Yvie não era uma escolha interessante para isso, mas Raja (escolhida primeiro numa ordem definida por RuPaul sabe-se lá por que) acabou dando a segunda estrela para ela. Jinkx preferiu dar a sua para Jaida, o que também acabou parecendo mais um ato de coleguismo do que de estratégia.

A ideia de mais um desafio “girl groups” é um alívio (ao menos vamos nos divertir vendo as coreografias); e cada um deles tinha ideias bem boas para o próprio conceito (e que foram abandonas segundos depois, na hora de gravar os solos). Tal qual Jinkx com a comédia, sabemos que Shea, Monet e  Yvie têm grandes possibilidades de vitória, já que esse é o tipo de desafio que elas costumam levar no bolso muito bem. Tudo que elas planejaram para cada uma das personagens apareceu muito pouco nas letras, mas a entrevista com um bizarro Ross Mathews possibilitou que essas criações tivessem ao menos um tempo para o destaque.

Ver Yvie derrotada num lipsync foi uma espécie de demarcador do que a presença da queen tem sido nessa edição de vencedoras. Além de ganhar uma estrela por caridade, ela venceu e não venceu, acentuando muito mais suas fraquezas do que suas forças. O trabalho de Yvie ainda é poderoso na passarela e em sua ótica peculiar do mundo. Mas, ela tem se debatido um pouco entre tantas personalidades carismáticas, sobretudo se considerarmos que os últimos desafios têm sido muito dependentes do C de C.U.N.T. Algum jurado a situa dentro dessa engrenagem? Não, é claro. Nem a ela e nem a nenhuma outra que vier a precisar de um “empurrão”.

O tempo da Drag Race, em essência, é o do medo do julgo, da delicadeza de abordagens. Não queremos, é claro, ver Michelle Visage gritando com uma participante. Mas, se o júri não faz seu trabalho direito, ninguém amadurece. As tensões em torno do All Winners não existem no ateliê, não existem no painel, não existem em lugar nenhum. De fato, chegamos ao ponto em que não deveríamos chamar mais a temporada de “competição” e sim de “mostra”. Assistir tanto talento é sempre um privilégio, mas depois de algumas semanas… cansa. Ninguém permanece numa exposição por muito tempo, hits da música não passam de 3 minutos e todo desfile não dura mais que uma caminhada.



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