Us [Series Finale] – Série Maníacos


Há quase seis anos, em 20 de setembro de 2016, estreava na TV aberta dos EUA uma série cujo trailer havia superado 70 milhões de visualizações em apenas uma semana. Era um verdadeiro fenômeno antes mesmo da sua estreia. Com a promessa de uma história simples, a NBC apostou novamente em uma narrativa que contava o dia a dia comum de algumas pessoas. “Sucessora” de Parenthood, a série estrelada especialmente por Milo Ventimiglia e Mandy Moore preparou-se para ser tão boa quanto aquela, preparou-se para ser um sucesso da TV aberta e superar as barreiras em razão disso. E devo lhes dizer que ela conseguiu.

Passado todo esse tempo, This is Us fecha sua conta com 6 temporadas, 106 episódios, 240 nomeações em premiações e 59 vitórias (até agora), dentre elas o prêmio de melhor ator em série de drama para Sterling K. Brown no Emmy de 2017. Claro que não é muito em comparação a outras séries por aí, sobretudo da TV a cabo e dos streamings, que dominam as indicações e vitórias, mas é um feito gigantesco e eles sabem disso.

Por aqui, foram duas coberturas de temporadas e muita troca de ideias. Hoje, faço minha última review para essa série que vai deixar muito mais do que apenas saudades. Vocês estão prontos?

Evitei qualquer notícia sobre a series finale, não somente para evitar spoilers, mas para ir zerada de qualquer tipo de sentimento. Consegui. Cheguei a dar play sem saber como seria o episódio final, mas com algumas ideias na mente por tudo que a série nos apresentou e pelo que conhecemos dela também. Sem surpresas, sem nada mirabolante, Us foi um verdadeiro epílogo. E daqueles bons, sabe? Que a gente termina um livro com tanto afeto e alegria, que aquelas últimas folhas é a única coisa que queremos nos apegar.

Se o episódio fosse duplo, teria feito tanto sentido quanto, talvez fosse até melhor. E assim como o seu anterior, esse episódio solidificou e deu fim/início a uma parte da vida dos Pearsons, a vida que conhecemos, que acompanhamos semanalmente e fielmente. De maneira leve, ainda que num plano de fundo triste, a série se propôs a trazer leveza em um dos pontos mais trágicos da vida de qualquer pessoa. Não só leveza como sentido, propósito. Quase que de maneira contínua, chegamos ao enterro da Rebecca, sem que o episódio fosse sobre ele. Não precisávamos de mais despedidas, de mais discursos e gestos grandiosos. Precisávamos, e talvez nem soubéssemos, era de mais um flashback de um dia comum na vida do Big Three. Um flashback para nos lembrar, do lado de cá, que quando o tempo passa, o que menos importa são as coisas grandiosas, são as grandes memórias. Quando o tempo chega, a gente só quer lembrar de dias comuns, atitudes e gestos simples.

Ta aí, simples. Palavra tão simples quanto o seu significado. Simples foi a finale, em contraposição a palavra complexa. This is Us nunca foi complexa, nunca foi de muitas teorias, somente as que envolviam o destino de certos personagens, mas a sua história em si sempre foi simples. De um modo muito gostoso e divertido, o último episódio fechou o ciclo para nós, telespectadores, mas deu seguimento para os personagens. Ao longo da 6ª temporada fomos entendendo aos poucos como seria a vida de cada um quando a série acabasse. Aos poucos fomos finalizando arcos e começando outros sem que precisássemos ver para crer. Deja, Anne, Tess, Jack, Hailey, Nick e Franny, não sabemos muito do futuro dos netos de Jack e Rebecca, mas o básico nos foi mostrado e se faltou profundidade para alguém, para mim os secundários tiveram o que precisavam ter.

Uns mais outros menos, desses que citei acho que Deja e Jack tiveram maiores destaques. Acredito que a importância foi dada justamente pela carga emocional em ambos os personagens. Se pararmos para lembrar como cada um apareceu na vida do Randall e Kate, fica fácil entender o nível de importância de um e de outro para a série. E se desde o início eles transformaram a vida dos seus pais, sendo importantes até em divórcio, no caso do Jack, na reta final a existência dos dois, sobretudo a Deja, tornou tudo menos complicado.

E que cena linda a do Randall conversando com a filha, que cena linda ela contando sobre a homenagem ao Willian. A conexão dos dois é surreal de boa e a série conseguiu captar isso desde o primeiro contato dos dois. A escolha do elenco foi fundamental para que a dinâmica continuasse, e se temos algo a agradecer é pelas atrizes que interpretaram a Deja, La Trice Harper (versão adulta) e Lyric Ross (versão adolescente) terem atuado de forma unívoca. Um deleite aos nossos olhos que vai além da semelhança física.

Ao longo da série, muito foi discutido sobre a vida e as suas peripécias. Nessa reta final, intensificado pela doença da Rebecca, refletimos sobre como nos deixamos levar por tantas coisas ao longo da nossa existência, esquecendo que tantas outras importam para o processo. Vou lhes dar um exemplo bobo: eu estudei o ensino fundamental e médio na mesma escola. Desde antes de entrar no ensino médio, eu dizia para meus amigos que quando aquele triênio acabasse, eu ia sentir muita saudade da rotina, do dia a dia colegial e de tudo que cercava aquela vida ali. Chegou no terceiro ano e eu vivi cada dia como se fosse o último, aproveitei a todos e olhava para trás com grande saudosismo. Mesmo sem saber direito que tipo de saudade iria sentir e que tipo de sentimento eu teria de fato, já tinha na mente que as coisas não voltariam, que mesmo sendo amigas de algumas daquelas pessoas ali, nada seria exatamente como era.

O tempo se passou, eu me formei e a saudade veio do jeito que tinha imaginado, latente, gritante e impiedosa. Hoje lembro dos excelentes momentos que vivi no colégio, das pessoas que convivi e mesmo mantendo contato com boa parte delas, simplesmente não é a mesma coisa. A dinâmica é outra, e aqui não entro no mérito de se melhor ou pior, ela é apenas outra. A inocência, a despreocupação… e é por isso que a fala do Jack faz tanto sentido e fez tanto sentido para mim naquele momento: “quando somos novos, queremos ser mais velhos e quando somos velhos, queremos voltar”. A gente até tenta reviver e sonhar, projetar em qual vida viveremos aquilo de novo, ainda que não da mesma maneira, mas a verdade é que o que passou, passou e não tem nada que possamos fazer.

Se Kate foi esperta demais para a sua idade e captou que momentos como a brincadeira de colocar o rabo no burro seriam cada vez mais raros na sua família, Kevin e Randall demoraram para entender a lição do seu pai. Ambos nas suas realidades, demoraram para se entenderem e desbloquear os impedimentos que os afastaram cotidianamente ao longo da vida. Desde a infância, as suas brigas e discussões pareciam muito maiores do que deveriam ser. Ego, individualismo, preocupação ou apenas ciúmes. Com exceção da última briga, que por pouco não se tornou irreparável se não fosse um dos maiores acontecimentos da vida do Kevin e do Randall.

Como eu disse na review passada: morte e vida andam lado a lado. E se o nascimento dos filhos do Kevin foi motivo suficiente para impulsionar um diálogo digno com o Randall, a viagem para entender sobre seus antepassados e descobrir mais sobre sua mãe biológica também. Os irmãos amadureçam suas relações e hoje pode-se dizer que se entendem melhor do que antigamente. Claro que não é perfeito e seria piegas demais se a série forçasse isso, até porque irmãos brigam até o último instante, mas eles também se amam na mesma medida. É como dizem por aí: é família, não tem jeito!

A rejeição de ser filho adotado, a ligação entre dois irmãos “de sangue”, se questionamentos tiraram o sono do Randall por muitas noites, se o não pertencimento foi pauta das suas sessões de terapia, hoje podemos afirmar que o Randall “do futuro”, do agora presente, é um homem muito mais sábio do que já foi, mais maduro, continua chorão, como sabiamente apontou Kevin, mas que não deixou as mazelas da sua vida serem enxergadas somente como mazelas. O desenvolvimento do personagem foi notório e a jornada mais bacana de acompanhar para mim. Vou sentir saudades das suas loucuras, dos surtos, do jeito afobado de resolver problemas, mas principalmente da pessoa que ele é quando está com a Beth.

Lá no início eu disse que This is Us deixou muito mais do que saudade, e aqui eu explico: ela deixa lições sobre a vida, que vira e mexe nos dá o recado de que precisamos escolher nossas batalhas. Ela nos ensina e nos mostra que o tempo é nosso grande amigo, ele puxa nossa orelha, mas também nos acode quando precisamos. E é por isso que é perceptível que a série conversa muito bem com o público, não exclusivamente por ter contado histórias sobre a vida de uma família, mas pela forma como ela contou essa história. Padrões, trejeitos, ensinamentos, tudo que vimos na vida dos Pearsons é um pouco do que temos na nossa vida, com as nossas famílias. Quem aí não se identificou com um e/ou outro personagem em momentos diferentes da série? Na insegurança e em se apagar diante da multidão, do medo de não ser bom o suficiente e se cobrar demais, na busca pelo amor e no arrependimento por não ter dado valor a quem esteve por perto. Quantas situações Kate, Randall e Kevin vivenciaram e nos fizeram refletir minimamente sobre algo das nossas vidas pela tamanha semelhança?

A verdade é que nos apaixonamos pela simplicidade da vida, nos apegamos a pessoas que passam por problemas similares aos nossos, nos identificamos com as situações dramáticas, engraçadas, comuns e as almejadas. Era a nossa família também e é por isso que talvez tenha doído tanto se despedir e talvez também seja por isso que os roteiristas tenham trazido tanta leveza nessa despedida. Leveza demais que nem parecia que estávamos em um último episódio, o anterior teve mais cara de series finale, cá para nós, mas mesmo assim em nada tira o brilho do que foi. Afinal, foi lágrima por cima de riso, e muitos agradecimentos pela excelente jornada que tivemos o prazer de acompanhar.

Us não é sobre acontecimentos, a series finale de This is Us é sobre diálogos e um grande epílogo de uma obra muito bonita que começamos a ler lá em 2016. É aqueles copos de chocolate quente em dias de chuva, é triste, mas também acolhedor.

The Big Eight

P.S.: No segundo episódio da 1ª temporada, Jack grava o vídeo com os meninos falando o cântico do Big Three. E depois de muito tempo temos o cântico de volta! Que demais!

P.S.: “First came… Me. And Dad said… Gee. And then came… Me! And Mom said… Whee! And then came… Me. And they said… That’s three. Big Three! BIG THREE!”

P.S.: Elenco mirim antigo voltando, aí foi pra me matar de vez!

P.S.: O surto do Randall HAHAHAHAHAH WE’RE HAVING A BOY!!

P.S.: Perdi absolutamente TUDO com o Kevin imitando o Jack. Ri demais!!

P.S.: Quem aí mais sorriu do que chorou? Euzinha gargalhava a cada 10 minutos. Que legal essa leveza num episódio final.

P.S.: Beth, meu amor, eu daria tudo para te acompanhar em qualquer spin off que fizessem. Perfeitona e seu último pior cenário possível foi cirúrgico. Randall com certeza faria qualquer coisa que citou hahahaha.

P.S.: Por falar em spin off, será que teríamos um futuramente sobre os netos? Até que não é má ideia, viu? O que acham?

E para aqueles/as que acompanharam minhas escritas, seja participando nos comentários ou apenas bisoiando as minhas impressões sobre os episódios, meu muitíssimo obrigada por passarem por aqui. Vocês são demais e é bom demais ser recebida com muito carinho. Nos vemos por aí, grande beijo e se cuidem!!



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